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A nação indígena Gavião, cujo território fica em Bom Jesus do Tocantins, município do sudeste do Pará, foi a primeira do Estado a receber em suas aldeias o Projeto Mundiar, metodologia implantada em 2014 pela Secretaria de Estado de Educação (Seduc), em parceria com a Fundação Roberto Marinho, que visa corrigir a distorção escolar idade/ano e reduzir repetência e evasão de alunos da rede pública de ensino.

Com a iniciativa, voltaram para a sala de aula 91 indígenas no Ensino Fundamental (56) e Médio (35), matriculados para o primeiro módulo, iniciado neste mês. A coordenadora de Educação Indígena Rosani Fernandes, da 4ª Unidade Regional de Ensino (URE), sediada em Marabá, na mesma região, informou que atualmente há sete turmas do Projeto Mundiar em aldeias sob a jurisdição da 4ª URE.

“Todas elas criadas via processo demandado pelas próprias comunidades, que entendem que o modelo do projeto adequado às demandas por formação em menos tempo e com metodologia diferenciada pode contribuir para levar o indígena que parou de estudar de volta para as salas de aula, porque no caso deles, quando percebem que estão atrasados em relação aos outros alunos, abandonam o estudo”, disse Rosani Fernandes.

A Escola Estadual Tatakti Kyikatêjê abriga a maioria das turmas. Há uma turma na aldeia Akrãtikatêjê e uma turma de Ensino Médio na aldeia Koyakati, do povo Kyikatêjê. São povos da nação Gavião, oriundos das áreas atingidas pela barragem de Tucuruí, e que foram remanejados para as reservas em Bom Jesus do Tocantins.

“As comunidades indicaram professores das próprias aldeias para a docência nas turmas, por entenderem que estão próximos da realidade sociocultural e lingüística, e por isso podem realizar adaptações para a adequação da proposta ao contexto indígena”, explicou a coordenadora.

Há também uma turma de Ensino Médio na aldeia Nova Jacundá, do povo Guarani, no município de Jacundá, também no sudeste, sob a responsabilidade da Escola Irmã Dorothy Stang. Dinâmica – Concita Guaxipiguará, esposa do cacique da aldeia Gavião Kyikatejê, concluiu o curso de Licenciatura Intelectual Indígena pela Universidade do Estado do Pará (Uepa) e se tornou voluntária na Escola Estadual Tatakti Kyiatejê, construída dentro da aldeia. Segundo ela, a metodologia de ensino do “Mundiar” tem todos os pré-requisitos necessários para atrair os indígenas de volta para a sala de aula.

“Muitos do nosso povo pararam de estudar quando tinham de repetir série porque tinham vergonha de estar em salas com outros estudantes mais novos. Além disso, o sistema de aprendizado baseado nos vídeos e na dinâmica das atividades chama a atenção dos estudantes, que se motivam pela linguagem oral e audiovisual”, acrescentou.

A Escola Tatakti Kyiatejê tem 360 alunos indígenas matriculados. Anjikrore, professor de Língua Indígena na aldeia Kyiatejê, também decidiu concluir o Ensino Médio por meio do “Mundiar”.

“É uma oportunidade para quem estava sem estudar. Como as aulas começaram esse mês, eu ainda estou conhecendo o sistema de ensino, mas já avalio como bom. Os professores já aplicaram uma avaliação para fazer um diagnóstico do nível de aprendizado de cada um, e a partir daí definir quais os melhores caminhos para o aprendizado”, destacou.

Avaliação positiva

Na aldeia Akrãtikatêjê, única da nação Gavião no Brasil comandada por uma cacique, Kátia Tonkire, o projeto também animou os indígenas. Ela é enfática ao avaliar de forma positiva a metodologia de ensino.

“É algo inovador, que chega quando o nosso povo precisa voltar a estudar e chegar até a universidade para ser educador nas nossas aldeias. Eu mesma, que já concluí o Ensino Médio e estive cursando Ciências Sociais na Universidade Federal do Pará (UFPA), mas precisei parar por problemas pessoais, assisto às aulas e também estou relembrando coisas que já tinha esquecido. Meu incentivo é total. Tenho até intermediado junto aos pais para liberaram no horário diurno alguns dos seus filhos para voltarem a estudar, pois a turma da noite já está completa. Tenho total interesse de ajudar meu povo a ter sempre mais conhecimento”, afirmou a cacique. Valdineia Pjetairare, 22 anos, é uma das alunas do “Mundiar” na aldeia da cacique Kátia.

“Sou casada e tenho dois filhos que estudam, e quando a gente aprende também pode ajudar os filhos nas lições de casa. Estou muito feliz de aprender novamente”, disse a aluna, que havia parado de estudar há 5 anos.

Interesse dos alunos

Segundo o professor Marcos Lopes, coordenador Estadual do Projeto Mundiar, a implantação de turmas nas aldeias foi um avanço registrado em 2016. Quando a Secretaria recebeu a notificação de interesse dos próprios indígenas em concluir os estudos por meio do Mundiar foi uma grande oportunidade de colocar em prática uma realidade diferente e inovadora, acentuou o coordenador.

“É com muito orgulho que percebo a ousadia, a competência e o profissionalismo da atual gestão da Seduc em não medir esforços para garantir o acesso à educação e a qualidade do processo de ensino e aprendizagem, pois levando em consideração a dimensão geográfica de nosso Estado é uma tarefa desafiadora, porém inegavelmente gratificante quando encontramos alunos egressos do ‘Mundiar’ comemorando aprovação no ensino superior, conquistando vaga no mercado de trabalho, e neste momento, de maneira especial, o povo indígena usufruindo de um direito garantido constitucionalmente”, destacou.

Formação continuada

O coordenador disse ainda que, no período de 28 de novembro a 2 de dezembro, a Seduc promoveu a formação continuada do módulo II das turmas de Ensino Médio, envolvendo professores, supervisores e coordenadores do Projeto Mundiar de diversos municípios, em quatro polos formativos: Belém, Marabá, Castanhal e Santarém.

Mais de 340 servidores estiveram em pleno processo de aprendizado dos componentes curriculares do módulo II do Ensino Médio, e os professores indígenas participaram ativamente das dinâmicas integradoras, de socialização e avaliação, compreendendo a rotina pedagógica de sala de aula e as interlocuções culturais no ato pedagógico.

“O cenário de alunos e professores indígenas no Projeto Mundiar revela muito além do sentido de garantia de um direito, mas fundamentalmente o reconhecimento do papel da educação enquanto transformadora da sociedade, e a consolidação de um projeto que vem a cada ano transformando a vida de muitos alunos da rede pública”, frisou Marcos Lopes. Kátia Tonkire é uma liderança indígena que estimula a formação educacional de seu povo, sem deixar de incentivar a manutenção da cultura ancestral.

Escolhida pelo pai entre quatro irmãos e uma irmã para comandar sua tribo, ela não somente transmite a língua materna como pratica todos os dias a escrita e a fala.

“Estou escrevendo uma canção entoada pelos meus avós, e cantando para meus filhos e netos, pois acredito que assim como eles devem concluir o ensino oferecido pelo homem branco, devem garantir a continuação da nossa nação”, contou a cacique.

A base da manutenção da aldeia comandada por Kátia é formada pela agricultura familiar e a pesca.

Fonte: Projeto Mundiar reconduz à escola alunos indígenas que haviam abandonado o estudo