As taxas de desmatamento no Sul do Amazonas voltaram a crescer nos últimos anos. As frentes de desenvolvimento avançam sobre o território trazendo diversos impactos ambientais e sociais para a região. As Terras Indígenas demarcadas estão confinadas a um limite territorial marcado enquanto as populações indígenas não param de crescer, bem como a necessidade de serviços e bens de consumo não-indígenas. Como lidar com os desafios atuais para a gestão territorial no Sul do Amazonas?

O curso de Agente Ambiental Indígena (AAI) do IEB (Instituto Internacional de Educação do Brasil) reuniu 39 indígenas do povo Apurinã para trabalhar diversas técnicas e conteúdos, tais como introdução a cartografia e uso do GPS, vigilância e proteção territorial, sistemas produtivos indígenas e cadeias de valor, mudanças climáticas, histórico de ocupação regional no Médio Purus, entre outros.

Esse primeiro módulo da formação, com duração de 12 dias, aconteceu em Porto Velho (RO) no Centro de Formação e Cultura Kanindé e contou com a participação de indígenas de quatro Terras Indígenas: Caititu, Água Preta/Inari, Boca do Acre e Km 124. O curso faz parte do Projeto SulAm Indígena apoiado pelo BNDES e o Projeto Nossa Terra, apoiada pela USAID. Ambos têm o objetivo de promover a implementação do PNGATI nas terras indígenas do Sul do Amazonas.

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A atividade faz parte de uma formação abrangente que terá a duração de três anos e meio e será composta por módulos presenciais na cidade e um conjunto de atividades práticas nas aldeias, tanto para o povo Apurinã, quanto para os povos Kagwahivas (link para a reportagem da sara – aguardando aprovação).

O objetivo do programa é formar indígenas que possam atuar e multiplicar conhecimentos a respeito de  gestão ambiental e territorial dentro de suas comunidades. Participaram pelo IEB, Cloude Correia, coordenador do Programa Povos Indígenas do IEB, Marina Villarinho, assessora e articuladora das ações na região do Purus e a coordenadora do IEB Brasília, Andréia Bavaresco.  O curso contou também com a participação da Coordenação-Geral de Monitoramento Territorial (CGMT) da FUNAI, e das Coordenações Regionais do Médio Purus e do Altos Purus.

“Estar hoje aqui diante de vocês me traz grande alegria. Seus pais e avós lutaram comigo pela demarcação das Terras Indígenas. Muito sangue foi derramado para que isso acontecesse, por isso me emociono ao ver vocês, jovens, engajados em um trabalho como esse”, disse Umanary, coordenação da OPIAJBAM, associação parceira do projeto.

No último dia desse primeiro módulo as coordenações executivas das associações indígenas que representam as TIs compareceram para prestigiar o trabalho feito e discutir o planejamento das atividades de campo, como por exemplo, a excursão de vigilância indígena que será realizada nas quatro TIs ainda em 2017. Além da OPIAJBAM, a FOCIMP e a OPIAJ assistiram o planejamento das ações proposto pelos agentes ambientais indígenas em cada TI, trazendo contribuições e motivando a turma.

“Nós apostamos na formação de vocês para que possamos chegar na base e mobilizar as comunidades para o cuidado da nossas Terras. E é por isso que estamos aqui hoje, para ver o trabalho de vocês e poder acompanhar de perto esse processo. Sabemos que não é fácil, já faz tempo que nós também estamos atrás de qualificação para podermos tocar com nossas próprias pernas a gestão das nossas terras e sermos capazes de elaborar e gerir nossos próprio projetos. Estamos sendo atacados por todos os lados, vejam vocês o que está acontecendo com a FUNAI, todas as ameaças aos direitos indígenas que estão correndo no Congresso Nacional. Nossa luta é pela autonomia, pela manutenção e auto-gestão dos nossos  territórios, queremos ser consultados e mais do que isso, queremos ser ouvidos. Mas para escolher um futuro de qualidade é preciso de muito aprendizado e de muita discussão, é preciso correr atrás para entender o que tá acontecendo, conhecer ferramentas que possam nos ajudar. É com isso na mente que quero que vocês voltem para suas casas. Aqueles que gostarem desse trabalho se tornarão pessoas de referência em suas comunidades”, esclarece Wallace Apurinã, Coordenador da OPIAJ.

Durante o curso participaram ainda o consultor Igor Ferreira que trabalhou junto aos Agentes Ambientais Indígenas cartografia, aplicativos de visualização georeferênciada, o uso do GPS e conceitos que orbitam a gestão territorial indígena. Caroline Correia do IPAM, contribuiu com o tema das mudanças climáticas e apresentou a plataforma SOMAI para os AAI.

“Estamos convencidos de que se queremos que o projeto se enraíze nas comunidades, tenha aderência de fato na base e melhor que isso, se queremos que o projeto frutifique, devemos apostar na formação desse atores que serão co-responsáveis na execução de algumas atividades previstas, como a melhoria dos sistemas produtivos indígenas, o monitoramento e a proteção territorial, o estabelecimento de quintais agroecológicos, sempre mesclando saberes tradicionais com técnicas e conhecimentos científicos. Queremos consolidar uma rede de trocas de experiências em torno da gestão dos territórios indígenas no Sul do Amazonas. Uma rede que possa se firmar ao longo do processo formativo, fortalecer politicamente os atores locais para enfrentar os desafios atuais e garantir o bem viver nesses territórios. E para isso não temos nenhuma receita de bolo, pois o bem viver parte de uma profunda discussão das comunidades com suas lideranças. Os agentes ambientais indígenas farão uma ponte entre suas comunidades, poderão multiplicar saberes e deixarão um lastro de ações e conhecimentos que permanecerão quando o projeto acabar”, avalia Marina Villarinho que acompanhou o andamento dos 12 dias de formação que terá sua segunda etapa ainda esse ano, prevista para o mês de novembro. “Essa formação está sendo construída conjuntamente e a cada ação. Encerrado o tempo do encontro presencial, agora contamos com o desenvolvimento de ações práticas, no tempo aldeia.”, conclui.

FONTE: http://www.iieb.org.br/index.php/notcias/39-indigenas-participaram-de-primeiro-modulo-do-curso-de-agente-ambiental-indigena-do-ieb/