Poeta e profeta do povo, bispo emérito se tornou referência na luta pelos direitos humanos no Araguaia (MT)

Emilly Dulce

Brasil de Fato | São Paulo

“Por onde passei, plantei a cerca farpada, plantei a queimada. Por onde passei, plantei a morte matada. Por onde passei, matei a tribo calada,

a roça suada, a terra esperada… Por onde passei, tendo tudo em lei, eu plantei o nada.”

Confissão do Latifúndio 

Essa é uma das poesias de protesto escrita pelo bispo Dom Pedro Casaldáliga. Os versos rimam com a vida do militante cristão, que ficou conhecido pela defesa dos direitos dos mais pobres na região de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso.

Quem conviveu com o missionário destaca a importância de sua luta pela vida, pelos bens comuns e pela democracia, como é o caso de Antônio Canuto, membro fundador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que viveu ao lado do bispo na região amazônica. “Pedro é um homem de uma profunda sensibilidade humana, por isso ele é um grande poeta e um grande profeta. Essa sensibilidade se traduz em poesia, em denúncias e nas diversas formas de manifestar a sua contrariedade às injustiças e todas as formas de exploração que existem.”

Pedro Casaldáliga Plá nasceu catalão no ano de 1928, em uma aldeia há alguns quilômetros de Barcelona. De família camponesa, desembarcou no Brasil em 1968 e foi consagrado bispo em 1971, quando lançou sua Carta Pastoral Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social. O texto ficou conhecido nacional e internacionalmente e marcou o perfil do missionário como porta-voz de índios e agricultores, como destaca Antônio Canuto:

“O grande diferencial foi dar visibilidade a uma situação amazônica que praticamente era invisível. Ele mostrou para a Igreja e para a sociedade uma realidade que no restante do Brasil não se conhecia. Ele foi assumindo diretamente a defesa das pessoas mais atingidas pela violência daquela região, que eram os índios, os posseiros e os peões”, afirma.

Hoje, Dom Pedro Casaldáliga completa 90 anos de vida e 50 como bispo do povo. Ele foi responsável por articular e fundar o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a CPT, como uma forma de tratar assuntos sociais e políticos no universo da Igreja Católica.

Pedro Casaldáliga se apaixonou pela América Latina e só retornou uma vez à sua terra natal. Pela vocação literária, ajudou a escrever a Missa da Terra sem Males e a Missa dos Quilombos, cantada por Milton Nascimento e diversos artistas.

Obstinado, corajoso e firme, Casaldáliga fez uma escolha pelos pobres e lutou no Brasil da ditadura militar por saúde, educação, justiça e pela reforma agrária, o que lhe rendeu ameaças de morte e ataques dentro e fora da Igreja. As hostilidades não intimidaram sua resistência contra os males que o capitalismo selvagem — brasileiro e internacional — causava a milhares de homens e mulheres.

Em 2005, Dom Pedro, que sofre do mal de Parkison, apresentou sua renúncia do governo pastoral de São Félix do Araguaia. Hoje, frágil e com dificuldades de locomoção, ele ainda vive no mesmo lugar onde construiu seu compromisso religioso, social e político na vocação com o Evangelho que encarnou ao longo da vida.

Edição: Mauro Ramos