Associação Terra Indígena Xingu (Atix) recebe Prêmio Equatorial da ONU, importante reconhecimento de iniciativas que trabalham pelo desenvolvimento sustentável ao redor do mundo. A associação foi escolhida entre 800 organizações de 120 países

A Associação Terra Indígena do Xingu (Atix) recebeu neste domingo (17/09), em Nova York, o Prêmio Equatorial 2017, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), pelo trabalho pioneiro na autocertificação de um produto orgânico: o Mel dos Índios do Xingu, que envolve 100 apicultores de 39 aldeias dos povos Kawaiwete, Yudja, Kisêdjê e Ikpeng, todos eles moradores do Território Indígena do Xingu, no Mato Grosso.

Desde 2002, o prêmio Equatorial prestigia grupos locais e comunidades indígenas de áreas rurais que desenvolveram soluções inovadoras para proteger, restaurar ou promover o manejo sustentável da natureza com o intuito de alcançar o desenvolvimento sustentável local, incluindo segurança alimentar e hídrica, empregos sustentáveis e redução de risco de desastres.

Ianukula Kaiabi Suia (dir.) e Yakari Kuikuro (esq.), da Atix, recebem prêmio em Nova York

“O momento de ontem foi importante para todos os povos do Xingu”, comenta Ianukula Kaiabi Suia, membro da Atix que foi o primeiro coordenador do projeto do Mel e acompanha o trabalho desde então. Ele recebeu o prêmio juntamente com Yakari Kuikuro, atual presidente da associação.

“Alguns segmentos no Brasil dizem que a floresta é um empecilho para o desenvolvimento do País, que as Terras Indígenas são improdutivas e que os povos indígenas não contribuem com a economia. Nós desmentimos isso e provamos que, sim, é possível gerar renda com a floresta em pé e que não é preciso desmatar para poder chamar de desenvolvimento”, conclui a liderança xinguana.

Outros vencedores desta edição do Prêmio foram os Ashaninka, povo que vive na fronteira do Acre com o Peru. A Associação Ashaninka do Rio Amônia (Apiwtxa) foi reconhecida pelo trabalho de resguardo dos conhecimentos tradicionais e recuperação a biodiversidade de seus território

Alternativa de renda

O trabalho com o mel, realizado em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) há quase duas décadas, já se consolidou como uma importante alternativa de geração de renda articulada com o modo de vida dos povos indígenas. A iniciativa tem como objetivo organizar e assegurar a segurança alimentar dos povos e canalizar os excedentes das produções para um mercado formalizado, com responsabilidade social e ambiental.

Oficina de apicultura na Terra Indígena Wawi, Território Indígena do Xingu

O Mel dos Índios do Xingu é uma das maiores referências quando se fala em alternativa de renda compatível com os povos da floresta e agora passa a ser reconhecido internacionalmente. Na esteira desse processo, novas alternativas estão se fortalecendo, como a pimenta, o óleo de pequi e a meliponicultura.

Transparência da coleta à prateleira
O Mel dos Índios do Xingu também tem o Selo Origens Brasil. A iniciativa, elaborada em parceria entre o Instituto Socioambiental o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) faz parte da estratégia de valorizar os produtos da floresta por meio de um dispositivo de rastreabilidade.

O produto está à venda em unidades dos supermercados Pão de Açúcar e no Box Amazônia e Mata Atlântica do Mercado de Pinheiros, em São Paulo.

Autocertificação, uma conquista do Xingu!

A certificação orgânica dos produtos sempre foi um desafio para os povos do Xingu. A única alternativa era recorrer a sistemas de certificação auditados por empresas especializadas privadas. O alto custo e a burocracia não levava em consideração as particularidades dos povos indígenas e dificultavam o processo.

Em 2015, a Atix se tornou a primeira associação indígena certificadora de produção orgânica. A associação conquistou o credenciamento pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que é responsável pela normatização e fiscalização das regras da produção orgânica no Brasil. Assim, foi inaugurando o primeiro Sistema Participativo de Garantia (SPG) exclusivamente indígena do mundo.

Mel dos Índios do Xingu à venda no Box Amazônia e Mata Atlântica do Mercado de Pinheiros, em SP

As normas preveem a organização de uma estrutura de avaliação e verificação dos produtos pela própria comunidade, a fim de certificá-los conforme as regras da produção orgânica, fortalecendo o controle social e a transparência do processo.

O Sistema Participativo de Garantia é uma importante política pública de acesso dos pequenos produtores à certificação orgânica. Mais do que a certificação do mel do Xingu, essa conquista possibilita que grupos de pequenos produtores de todo Brasil se organizem para certificar seus produtos sem intermediação de certificadoras privadas.

A Associação Terra Indígena do XinguFundada em 1995, a Associação Terra Indígena Xingu (Atix) representa 16 povos indígenas: Aweti, Ikpeng, Kalapalo, Kamaiurá, Kawaiweté, Kisêdjê, Kuikuro, Matipu, Mehinako, Nahukuá, Naruvotu, Tapayuna, Trumai, Waurá, Yawalapiti e Yudja. Ao longo de sua história, a Atix assumiu o desafio da construção da autonomia multiétnica na gestão do território xinguano. Desde quando foi criada, a associação tem buscado trabalhar questões de interesse comum aos diferentes povos do Xingu

Desde o início, a Atix vem se destacando pelo papel desempenhado na proteção e fiscalização territorial. Teve grande participação na reorganização do atendimento à saúde e no reconhecimento das escolas indígenas do TIX e, atualmente, também ocupa diversos espaços na política indígena no plano regional e nacional.

A associação coordenou a construção do Protocolo de Consulta do Xingu e do Plano de Gestão do Xingu e, atualmente, está trabalhando em suas implementações. O desenvolvimento de alternativas econômicas sustentáveis também é uma preocupação enfrentada pela Atix, além de comercializar o Mel dos Índios do Xingu, a Atix se tornou um Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade Orgânica (Opac), desempenhando também a função de coordenar a certificação orgânica da produção do TIX.

Fonte: https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/provamos-que-e-possivel-gerar-renda-com-a-floresta-em-pe