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Raoni se acomodou num cruzar de pernas, aparentemente bem sentado no carro alegórico que fazia homenagem a ele durante o desfile da Imperatriz Leopoldinense de ontem à noite. “Jamais se curvar, lutar e aprender/Escuta menino, Raoni ensinou”, diz a letra que o cacique ouvia atento.  À frente, atrás e em volta dele,  uma pequena multidão – com pouco mais de três mil pessoas transformadas em foliões –  se movimentava, eufórica com a letra do samba que pede preservação, que lembra os riscos dos agrotóxicos contra a saúde da terra. “Xingu, o clamor que vem da floresta”, pode até parecer o mesmo do mesmo, mas não é. Fosse tão batido, como dizem alguns,  seria mais conhecido do grande público. Mais cedo, num táxi, contei para um motorista que eu estava indo assistir ao desfile na companhia de alguns xinguanos e ele me perguntara:

“Ah, que ótimo!  Mas o que é Xingu?”.

Talvez tenha passado despercebido, de fato, do grande público, a íntima relação entre Xingu, o rio que tem quase dois mil quilômetros de extensão, um dos afluentes do Amazonas, e a hidrelétrica de Belo Monte, representada na folia carnavalesca com a alcunha de Belo Monstro.  Foi a  obra que desviou o rio, mexeu com o ecossistema da região,  causou perdas de peixes, prejudicou plantações. Para alguns, mal necessário para manter a sede do desenvolvimentismo.

Com certeza também a poucos pode ter afetado o fato de uma ala inteira estar fantasiada de Harpia, o gavião real, ave de rapina que alguns dos 26 povos indígenas  que se espalham pelos 28 milhões de hectares de áreas protegidas  do Parque Xingu, criado em 1961, têm o hábito de manter em cativeiro. Os xinguanos também gostam de carne de macaco, fazem lindos artesanatos que têm sempre a cor preta, colhem sementes para trocá-las e comercializá-las. E muito mais. É rico seu mundo, e nesse sentido a escola de samba que nasceu em Ramos, cumpriu bem um papel. Merece nota Dez no quesito polinizadora de informações.

A escola estava perfeita, disseram alguns especialistas no assunto.  Mas eu, que estava do lado de fora do Sambódromo, prestei atenção na recepção de quem estava no Setor mais popular da Avenida e percebi que não houve entusiasmo. Pelo menos, não tanto quanto quando a Grande Rio, escola que contou a vida de Ivete Sangalo,  entrou na avenida. Entre os índios e o axé da baiana famosa, nem houve hesitação.

O refrão da Imperatriz traz uma palavra de ordem – “Preservar!” – que não é fácil repetir sem pensar, ao menos, duas vezes. Complexidade demais para um momento tão folia. Ainda por cima, carrega com ela a possibilidade de debates polêmicos, diálogos intensos, entre quem percebe o desenvolvimento como única saída para a crise mundial que ainda se espalha e aqueles que, legitimamente, querem preservar os recursos naturais que a humanidade ainda não degradou. No meio do caminho ainda criticou, mais de leve do que seria esperado, o uso alargado dos agrotóxicos na agricultura.

Fato é que o Parque Indígena do Xingu mereceu ter sua história contada na Sapucaí. Entre outras coisas porque se tornou o que é hoje, uma das maiores e mais antigas áreas protegidas criadas no Brasil e uma prova, para quem entende do assunto, de que é possível conservar diversidades culturais  e ambientais  mantendo o desenvolvimento a um nível de bom termo não só para poucos.

Senti falta da presença de mais indígenas naturais. Mais cedo, em visita ao Centro Missionário em Santa Tereza, onde ficaram hospedados, soube que houve uma confusão de horários de voos, o que justifica algumas ausências. E coube a um único índio levar a notícia sobre a viagem às aldeias envolvidas, o que ele fez a pé ou de barco.  E não é que justamente o carro alegórico que trazia os poucos indígenas deu um defeito e quase não entrou na Avenida? O susto foi grande e poderia ter sido uma enorme decepção sobretudo para as jovens indígenas que haviam se preparado tanto para o encontro com aquela multidão, num cenário tão diferente da calma que lhes ronda quando estão entre os seus. Mas correu tudo bem e esbarrei com elas no fim do desfile, saindo apressadas, sendo paradas  para tirar fotos com os caraíbas que nunca tiveram chance de estar perto de indígenas verdadeiros.

“Xingu, o clamor que vem da floresta” não chegou a ser um momento-denúncia porque entre os índios, a preservação de sua cultura e o desenvolvimento econômico do mundo dos brancos há muitas arestas que não poderiam mesmo ser aparadas ali, no enredo criado pelo carnavalesco Cahê Rodrigues para um entretenimento.  Mas fiquei pensando, enquanto me envolvia na tensa volta para casa – o espetáculo da Sapucaí tem um entorno confuso, um trânsito caótico, taxistas que querem cobrar corridas sem obedecer ao taxímetro – no quanto evoluímos.  Da velha marchinha “Índio quer apito”, pouco respeitosa às causas dos indígenas, para um samba-enredo que cria um link entre o desenvolvimento e a necessidade de preservação, tem sido um caminho longo, tortuoso, cheio de obstáculos.

Uma coisa é certa: o cacique Raoni, assim como outros que se abalam de suas aldeias para alertar os brancos sobre a degradação ambiental que vem sendo causada pela ação do homem, têm contribuído muito nesse caminho. Foi, portanto, emocionante vê-lo ali, símbolo máximo da sabedoria de seu povo, placidamente posto entre uma legião de profanos, muitos dos quais ignorando os princípios de seus ensinamentos.

Fonte:http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/escola-leva-lider-da-sabedoria-indigena-para-folia-profana-e-amplia-debate-sobre-desenvolvimento.html