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A inclusão dos estudantes indígenas no ensino superior faz parte de um arcabouço de ações afirmativas que por meio de um conjunto de medidas ou ações pretende promover o resgate histórico e ou permitir a desestruturação das relações assimétricas entre grupos sociais. Assim, realizou-se, entre 2009 e 2012, o vestibular específico para duas vagas suplementares nos cursos de Enfermagem, Medicina, Odontologia, Ciências Sociais, Ciências Biológicas e Agronomia. Esta ação afirmativa contribuiu para concretizar o pressuposto de que a Universidade tem uma responsabilidade pública e social para com os grupos em situação de vulnerabilidade social, econômica e política.

Para refletir sobre as questões relacionadas à formação acadêmica e profissional dos estudantes indígenas e a interlocução com os saberes e as práticas de cuidados de suas comunidades, professores, estudantes indígenas, lideranças e membros da comunidade estiveram reunidos nesta terça-feira, 29 de novembro, em um seminário.

A professora Lívia de Souza Pancrácio de Errico, presidente da Comissão de Acompanhamento dos Estudantes Indígenas (CAEI) e uma das organizadoras do evento afirmou que são cerca de oito grupos étnicos indígenas diferentes na universidade, com 34 estudantes indígenas.
Ela destacou que, sendo esse o primeiro seminário, é importante discutir e pensar quais são os valores que as comunidades indígenas trazem para ajudar os profissionais na formação acadêmica dos alunos. “Nós estamos analisando o processo nos quais eles passaram de inclusão. Sejam os processos que nós coordenamos enquanto CAEI, os que eles trouxeram do aprendizado nas suas comunidades, ou até os que desenvolveram aqui no cotidiano”, afirmou Lívia.

A aluna do 10º período do curso de Enfermagem, Kaypunã Brás da Conceição, da etnia Pataxó, é do primeiro grupo de estudantes indígenas da universidade. Ela contou que apesar de ser um curso difícil, adorou a experiência durante esses anos e que escolheu a área da saúde para ajudar sua comunidade natal, mas que primeiro pretende adquirir experiência em outras comunidades antes de voltar para a que pertence. “A comunidade onde eu moro, Açucena, entre o Vale do Aço e o Vale do Rio Doce, é uma muito pequena, não gostaria de voltar agora inicialmente, pretendo trabalhar com outras comunidades para depois retornar. Adquirir muita experiência para depois auxiliar o meu povo”, relatou Kaypunã.

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As estudantes Kaypunã Brás e Izamara Ferreira e a representante da comunidade indígena da etnia Kaxixó, Liderjane Gomes

 

A aluna Izamara Abadia Ferreira, da etnia Kaxixó, está no 8ª período do curso de Ciências Biológicas e também pretende voltar para comunidade natal. Ela revelou que tem o sonho de levar seu projeto de plantas medicinais desenvolvido na universidade até o seu local de origem em Martinho Campos, Minas Gerais.

Otávio Júnior da Costa, aluno do 7º período do curso de Enfermagem, também é da etnia Kaxixó, na Aldeia Capão do Zezinho. Segundo ele, Kaxixó foi oficialmente reconhecida como grupo étnico em 2001 e atualmente possui 27 casas, escola indígena; Unidade Básica de Saúde construída pela FUNASA por meio do Programa de Atendimento à Saúde Indígena; igreja católica; Casa de ritual; campo de futebol e espaço cultural.

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O aluno Otávio Costa

 

Durante este tempo na Universidade, o estudante foi bolsista de extensão em Pediatria e no Pet Indígena, diretor da Associação Atlética Acadêmica da Saúde da UFMG organizou eventos indígenas e não indígenas e contribuiu em projetos de iniciação científica. Sobre as percepções e dificuldades encontradas no percurso na Universidade, Otávio citou: acompanhamento integral; políticas estudantis que busquem estruturar o percurso do estudante indígena dentro da universidade e dificuldades no acompanhamento das disciplinas do ciclo básico.

Uma das representantes da comunidade indígena presente ao seminário foi a Liderjane Gomes da Mata da etnia Kaxixó, Guerreira da Tradição, cuidadora de ervas medicinais e fitoterapeuta da comunidade. Ela enfatizou que esse tipo de evento é importante porque possibilita que os representantes acompanhem as atividades dos jovens estudantes. “A nossa participação nestes encontros faz com que eles tenham mais força para lutar pelos sonhos e incentiva a ter mais vontade de ficar e continuar no curso ”, comentou Liderjane.

O evento foi promovido pelo Grupo de pesquisa e extensão Tecnologias do Ensino e Cuidado de Enfermagem, organizado pelas professoras Livia de Souza Pancrácio de Errico, Paula Gonçalves Bicalho e Eunice Francisca Martins, pelos alunos Indiane Almeida da Silva e Otávio Júnior da Costa, com o apoio do Programa de Apoio Integrado a Eventos (Paie).

FONTE: http://www.enf.ufmg.br/index.php/noticias/347-seminario-aborda-formacao-academica-e-profissional-dos-estudantes-indigenas-na-universidade