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O Instituto tem 300 alunos de sete etnias que recebem bolsa permanência para indígenas

Com o objetivo de divulgar representatividade da cultura indígena no Instituto de Natureza e Cultura de Benjamin Constant, com alunos de etnias oriundas do Alto Solimões e do Vale do Javari, a primeira edição da Amostra Cultural é uma das principais atividades alusivas aos dez anos de implantação da Unidade Acadêmica. O evento ocorreu na última sexta-feira (18).

Sessões de pintura corporal com elementos gráficos indígenas, acompanhadas da explicação simbólica do significado e narração de histórias indígenas foram destaque na programação, além de feira de artesanato das mulheres artesãs da etnia Tikuna, dança tradicional dos índios Kokama, Kambeba e Witoto e apresentação musical do indígena Genaro de Umariaçu.

Na abertura, a reitora, professora Márcia Perales ressaltou que oportunidades como essa são a reafirmação de direitos, de compromissos e perspectivas para a comunidade e para os povos indígenas. “Queremos que essas expectativas se renovem, porque nos comprometemos com a causa indígena, uma prioridade. A ação dos grupos amplia a riqueza e a diversidade e fortalece o processo democrático numa instituição que é, por excelência, democrática”, enfatizou.

“Esta é a função da Universidade, sobretudo no aqui Alto Solimões”, completou o vice-reitor, professor Hedinaldo Lima. “O próprio nome do Instituto já delimita essa preocupação com a questão cultural na região. Então, precisamos promover, apoiar e sustentar essa diversidade cultural como uma oportunidade institucional”, ponderou o docente.

Representatividade

Acadêmicos do INC mostraram dança típica dos povos daquela região

Ao todo, fazem graduação no Instituto alunos indígenas de sete diferentes etnias da região: Tikuna, Kokama

“Agora, a Ufam não é só das cidades mais próximas, mas é do Alto Solimões. Sem todas essas etnias, nem o INC seria possível nesses dez anos. Sem a população, os estudantes que aqui estão, não poderíamos fazer história. Vamos trazer trabalhos produzidos por indígenas, porque isso aqui é apenas o começo e os indígenas também são capazes de fazer ciência”, afirmou Josiane Guilherme, uma das organizadoras da Amostra.

Ela é finalista do curso de Antropologia e já tem três artigos publicados, sendo dois no Brasil e um internacional. O tema do trabalho dela é o estudo da cultura Tikuna quanto às relações homoafetivas femininas. “Se temos direitos, também temos deveres e obrigações de dar resultados para a Universidade. Estou feliz pela colaboração de todos”, agradeceu a jovem.

Papel institucional

Evento teve a participação de alunos do INC representantes de sete etnias do Alto Solimões e do Vale do Javari

Evento teve a participação de alunos do INC representantes de sete etnias do Alto Solimões e do Vale do Javari

O diretor do INC, professor Ricardo Morais, recorda: “A Ufam foi pioneira ao tratar a questão indígena a partir da constituição de um curso de Antropologia com dez doutores, que também a criação de um curso de pós-graduação com Mestrado e Doutorado nessa área. Eu questiono, por que foi criado o curso? Muitos antropólogos trabalham com etnias, e a população do Alto Solimões tem esse objeto por excelência. Por isso, eleger o INC para ofertar o curso foi uma política acertada, tendo em vista que a preocupação já existia desde os anos 1980”, explicou.

Já o coordenador acadêmico, professor Max Pinheiro, destacou a mobilização estudantil como fator essencial de eventos como a Amostra. “Devemos valorizar a participação dos estudantes nos espaços da Universidade, porque nada é mais democrático que ela. Esta é a primeira Feria Cultural Indígena, e queremos que se repita sempre. A cada momento, a gente precisa ir mais longe para construir a cara do INC e de uma Universidade sempre aberta ao diálogo”, afirmou.

Valorização

Professor Genário Araújo fez apresentação artística e falou sobre a importância da formação superior

Professor Genário Araújo fez apresentação artística e falou sobre a importância da formação superior

Professor de Biologia de carreira das Secretarias Municipal e Estadual de Educação, Genário Araújo tem 12 anos de sala de aula. “No meu trabalho com os alunos do Ensino Médio, levo os elementos da cultura indígena para ensinar os conceitos e as práticas de Biologia e Química.  Isso ajuda os jovens a valorizarem a nossa cultura. Quando entram na Universidade, têm uma formação que possibilita, no futuro, trabalhar em prol da própria comunidade”, avaliou.

“É bonito nos reunirmos sem problemas para falar sobre o nosso povo indígena, que algumas vezes passam desapercebidos. No meu tempo, eu tinha que remar para estudar, mas agora os nossos jovens têm mais oportunidades e estão sabendo valorizar isso”, concluiu o professor.

Hoje servidora de carreira e representante institucional da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Benjamin Constant, Mislene Martins é egressa do curso de Antropologia do Instituto. “Sou da primeira turma, formada em 2010, e já fiz mestrado em Antropologia. Tenho orgulho da minha origem indígena, pretendo viver nesta região a vida inteira e deixar um legado para o povo Tikuna. Nós estamos construindo essa história juntos, com os índios formados na Ufam, mas é preciso manter vivo o diálogo entre a Universidade e os povos indígenas”, sustentou Mislene, ao compartilhar a vivência acadêmica que possibilitou o trabalho pelo seu povo.

“Reafirmação de direitos, de compromissos e de novas perspectivas para a população, para a comunidade e para os povos indígenas: queremos que essas esperanças e essas expectativas se renovem”, afirmou a reitora, professora Márcia Perales, endossando os discursos proferidos na mesa de abertura da Amostra Cultural Indígena. “O nosso compromisso se renova sempre e a causa indígena é uma prioridade”, concluiu.

FONTE: http://www.ufam.edu.br/noticias-bloco-esquerdo/6092-i-amostra-cultural-de-estudantes-indigenas-do-inc-valoriza-cultura-tradicional-da-regiao