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por Juliana Domingos de Lima -Nexo

A iniciativa pioneira de produção audiovisual indígena no país se mantém ativa há 30 anos. Agora, a sede do VNA fechou as portas

No dia 18 de novembro de 2016, a atriz pernambucana Rita Carelli compartilhou em seu perfil no Facebook a notícia de que a sede da ONG Vídeo nas Aldeias, localizada em Olinda, estava fechando as portas por falta de recursos.

O Vídeo nas Aldeias é uma iniciativa pioneira no país na área de produção e formação audiovisual indígena, fundada em 1987, pelo antropólogo e cineasta Vincent Carelli, pai de Rita Carelli.

Criado para “apoiar os povos indígenas no fortalecimento de suas identidades e seus patrimônios territoriais e culturais” através de recursos audiovisuais, o VNA realiza filmes sobre a questão indígena em parceria com as comunidades, além de promover oficinas nas aldeias para formar cineastas indígenas.

Há duas produções resultantes do Vídeos nas Aldeias em cartaz nas salas de cinema atualmente: “O Mestre e o Divino”, de Tiago Campos, e “Martírio”, de Vincent Carelli, um dos favoritos para o Candango deste ano, principal prêmio do Festival de Brasília.  “É um momento de contradição. Esse é o ano que Martírio está bombando, o Vídeo nas Aldeias está na Bienal [de Arte de SP]. Nunca tivemos tanta visibilidade e tanto reconhecimento em todos esses anos, e nunca tivemos tanta dificuldade financeira”, reflete Carelli.

Por que a sede foi fechada

A crise financeira, segundo o cineasta, foi aprofundada pela retirada do apoio da Embaixada da Noruega no Brasil ao projeto, após 25 anos de colaboração com o VNA. “A Noruega está cancelando esse programa, um programa amplo de apoio aos povos indígenas. Então ficamos sem uma base institucional”, declarou Carelli em entrevista ao Nexo. Os recursos da Noruega serviam para manter custos básicos da manutenção da sede, e já vinham sendo reduzidos anualmente.

Outros reveses na sustentação do projeto, como não ter sido contemplado em editais, culminaram na decisão de fechar a sede para reduzir custos. “O VNA sobreviveu 30 anos porque sempre teve uma estrutura leve, é um grupo pequeno, embora faça muita coisa. Então a estratégia é recolher, hibernar e continuar batalhando”, diz Vincent. Hoje o projeto conta com uma equipe de quatro pessoas, e apenas uma é remunerada.

Uma das adversidades enfrentadas pelo projeto foi ter sido impedido pelo estatuto do Fundo Setorial do Audiovisual, fundo da Ancine que aporta recursos na cadeia produtiva do audiovisual, de se inscrever em um edital para séries de TV com temática indígena. Não é permitido que ONGs pleiteiem os editais do FSA. O decreto publicado em 2011 pela presidente Dilma Rousseff, que mudou as regras do repasse de verbas federais a entidades não governamentais, também dificultou a sobrevivência do Vídeo nas Aldeias. “Nós ficamos sem a cooperação e sem acesso ao fundo setorial. E aí a coisa complicou”, relata Carelli ao Nexo.

O VNA CRIOU UM ACERVO DE IMAGENS SOBRE OS POVOS INDÍGENAS NO BRASIL E PRODUZIU UMA COLEÇÃO DE FILMES PREMIADOS

O VNA CRIOU UM ACERVO DE IMAGENS SOBRE OS POVOS INDÍGENAS NO BRASIL E PRODUZIU UMA COLEÇÃO DE FILMES PREMIADOS

 

Até 2012, a entidade recebia repasses de verba do Ministério da Cultura por meio  de um convênio. Depois, com o amparo legal da PolíticaNacional de Cultura Viva (PNCV), criada pelo MinC, o Vídeo nas Aldeias  tornou-se  “pontão de cultura” do ministério. Podem ser reconhecidas como Ponto ou Pontão de Cultura entidades ou coletivos culturais que desenvolvam ações continuadas em uma determinada comunidade ou território, ou que articulem uma rede de atores culturais por linguagem, tema ou expressão identitária, como é o caso do VNA.

Durante o convênio, o repasse feito foi de R$ 1,2 milhão, efetuado em três parcelas, pagas em abril de 2007, julho de 2008 e junho de 2010, segundo informou ao Nexo o Ministério da Cultura.

Apesar das tentativas de financiamento por outras vias, como os projetos de reparação de dano ambiental, os membros do VNA ainda não encontraram uma solução que permita a continuidade de suas atividades, como a realização de oficinas e o fornecimento de equipamento de filmagem para aldeias em todo o Brasil. “Temos algum apoio pra fazer filmes, vindo do Funcultura [edital para o audiovisual do estado de Pernambuco], mas não pra fazer formação que é o nosso diferencial”, diz o documentarista.

O maior problema, segundo Vincent, é que mesmo os espaços de financiamento que restaram, como os dos projetos de reparação de dano ambiental das hidrelétricas Belo Monte e Eletronorte, por exemplo, são para “cumprir tabela”, projetos pontuais que não oferecem possibilidade de sustentabilidade  a longo prazo para uma iniciativa longeva como o VNA.

Por que a formação é importante

A primeira oficina de formação foi realizada em 1997, na aldeia Xavante de Sangradouro (MT). Em 1999, o Vídeo nas Aldeias recebeu o Prêmio Unesco pelo respeito à diversidade cultural e pela busca de relações de paz interétnicas. O VNA criou, além disso, um importante acervo de imagens sobre os povos indígenas no Brasil e produziu uma coleção de dezenas de filmes premiados nacional e internacionalmente.

A partir da formação dos cineastas indígenas, o audiovisual se tornou um importante instrumento de registro de tradições e rituais para as comunidades. Ao mesmo tempo, uma ferramenta de defesa, tornando-os capazes de produzir provas contra violações de pistoleiros e fazendeiros, como mostra o documentário “Martírio”.

Um dos projetos interrompidos pela falta de recursos é a digitalização do material produzido ao longo dos anos para que ele retorne às comunidades e seja exibido para seus habitantes. “Os índios não podem perder o controle desse material. A gente [a ONG] é guardião e os donos são  eles”, diz Carelli, destacando a importância da devolução dos vídeos produzidos para as aldeias.

Outro é o mapeamento da produção cinematográfica indígena em todo o país, que vinha sendo discutida pelo Vídeo nas Aldeias com a Ancine e o Ministério da Cultura. A visibilidade alcançada pelos filmes do VNA fez com que muitos povos quisessem participar do projeto, que, com recursos sempre limitados, não consegue contemplar a demanda.

Esse fenômeno aponta para a necessidade da criação de uma política pública de fomento pensada especificamente para o cinema indígena, defende Carelli. Para ele, a concorrência em editais, envolvendo a escrita de um projeto e outras etapas burocráticas  pode impedir que a população indígena  tenha acesso às verbas da política pública tradicional do cinema brasileiro.

FONTE: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/25/O-que-%C3%A9-o-projeto-%E2%80%98V%C3%ADdeo-nas-Aldeias%E2%80%99-e-por-que-ele-est%C3%A1-amea%C3%A7ado