O ISA completa hoje 23 anos e um de seus sócios fundadores, Márcio Santilli, conta, numa crônica especial, um pouco sobre o que uniu 40 pessoas em uma fazenda em Itatiaia (RJ), em abril de 1994, para propor um novo olhar sobre a reconstrução do Brasil

Para os que fundaram o ISA há 23 anos atrás, em abril de 1994, a democracia foi um dos seus pressupostos. Após mais de duas décadas de ditadura, incluindo a tal “abertura lenta, segura e gradual”, e uma de redemocratização, estávamos todos ávidos por construir um instrumento novo e mais abrangente de atuação no âmbito da sociedade civil organizada, ou em organização. Acreditávamos que se a democratização prosperasse de forma substantiva – e fazer com que isso acontecesse seria uma das nossas missões – um tal instrumento de nova geração poderia também prosperar.

O outro pressuposto foi o de que a generosa base de recursos naturais do país, associada à diversidade das suas gentes, indicava um caminho bem mais interessante para a reconstrução do Brasil do que os modelos de desenvolvimento vigentes, já bastante cambaleantes. Para alguns de nós, esta seria uma boa hipótese e, para outros, o único caminho à vista.

(saiba mais porque “socioambiental” se escreve junto no vídeo abaixo)

Éramos, então, umas 40 pessoas reunidas na Fazenda da Serra, em Itatiaia (RJ), durante três dias. Era ali que o Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi) costumava realizar suas assembleias anuais, a meio caminho entre São Paulo e Rio de Janeiro, onde ficavam seus escritórios. Após 20 anos de sua criação, o Cedi havia decidido encerrar as atividades e se propôs a gestar até cinco novas organizações, decorrentes dos seus antigos programas, disponibilizando recursos, acervos e relações acumuladas, inclusive com agências de financiamento, para a sua constituição. Daqueles cinco projetos de organizações, três se viabilizaram: o ISA, a Ação Educativa e a Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço.

Além dos egressos do Cedi, lá estavam militantes da SOS Mata Atlântica, do Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) e outras pessoas desse campo político, inclusive estrangeiros. A convivência durante a Conferência Rio-92 – primeira grande reunião de chefes de Estado para aprovação das principais convenções internacionais sobre o meio ambiente – havia aproximado esses grupos e suas agendas. Todos experimentavam a necessidade de superação das suas experiências institucionais anteriores.

Mais que um nome, um conceito

Criar uma nova organização era consenso. A abordagem da questão ambiental no cenário de uma sociedade carente e com novos atores emergentes – já funcionava, por exemplo, a Aliança dos Povos da Floresta – reclamava um modelo próprio, diferente do ambientalismo conservacionista do “andar de cima” do planeta e comprometido com as transformações sociais desejadas pelos povos do sul. Daí que a designação de “instituto”, apesar da caretice da palavra, foi reconhecida como sendo mais representativa da vontade coletiva do que, por exemplo, uma mera “associação”, e com um sentido mais afirmativo do que “centro”, “núcleo” ou “fundação”.

O desejo difuso daquelas 40 pessoas era de encontrar um nome leve, que fosse simpatiquinho e de fácil apreensão pelas pessoas em geral, induzindo-as a perceber a junção dos campos “social” e “ambiental” e identificar-se com ela. Debatemos durante dias em busca de um nome fantasia, sem que chegássemos a algo criativo ou a um razoável consenso sobre as sugestões que iam surgindo.

Enquanto isso, o conceito de “socioambiental” ia se consolidando, inclusive por meio da abolição do hífen que, supostamente, segundo as regras da língua portuguesa à época, seria indispensável na forma correta de redigir a síntese temática pretendida, mas que todos preferiram dispensar. Queríamos a síntese, e não a justaposição.

Com falta total de imaginação e grande acuidade conceitual, o grupo foi evoluindo para a denominação “Instituto Socioambiental”, o que parecia uma solução razoável, embora excessivamente racional, ainda que provisória, sem prejuízo da futura adoção de algum apelido, ou sobrenome, que desse um pouco de graça, ou de leveza, ao conceito consagrado.

(veja abaixo a primeira campanha institucional do ISA, que pretende combater o preconceito contra os povos indígenas)

Porém, desde logo, a denominação confrontou um problema: e a sigla? Pela lógica, seria “IS”. Ficou estabelecido para aqueles fundadores que seria “IS”. Achamos que, assim, a sigla até aportaria algum grau de imaginação como, por exemplo, associando-nos à metáfora dos “pingos nos is”. Aquele encontro inaugural rejeitou a hipótese de uma sigla “ISA”, considerada um contrassenso diante da discussão acumulada sobre o caráter sintético do conceito “socioambiental”, uma espécie de reposição do hífen, sem hífen, por meio da duplicação de iniciais para o que seria – e é – uma só palavra. Portanto, O que o que se fundou foi o “IS”.

Como vivemos numa sociedade em que a linguagem verbal é francamente hegemônica, a chamada realidade dos fatos foi destroçando rapidamente a pretensão siglária do “IS”. Metido no meio de uma frase qualquer, o “IS” poderia virar qualquer coisa e até um plural de outra coisa. O “s” escorrega, em vez de identificar. Fomos percebendo que não havia como cravar uma identidade nominável só com um “i” solto no vento por um “s”. E foi assim, na prática, que o “a” acabou se impondo, subvertendo o estabelecido.

Bissexual e parente de índio

Com a progressiva e subversiva consolidação da sigla “ISA”, colocou-se uma questão de gênero. Na nossa língua, se diz “o” instituto, enquanto “ISA” sugere um ente do sexo feminino, tipo “Dona Isa”. Uma instituição bissexual ou hermafrodita! Parte considerável dos nossos parceiros indígenas resolve essa parada dizendo “a ISA”. Vivemos muitos anos perambulando entre o “a” e o “o”. Nem sei se essa perambulação terminou.

Seja como for, lutas memoráveis foram defumando o conceito, a denominação e a sigla, atribuindo-lhe os significados específicos e concretos que lhe dão sentido como instrumento de intervenção sobre o país. “O” ou “a” ISA ficou sendo parente de índio e de populações tradicionais, da tribo dos territórios da diversidade, do enfrentamento ao desmatamento e à mudança climática, da promoção de bons produtos de povos da floresta, da produção de informação sobre as diversidades nacionais, da construção e defesa das leis e das políticas para um “Brasil Socioambiental”. Os anos foram clivando uma identidade própria ao ISA, independente dos gêneros que se queira lhe atribuir.

Nessa data querida, enfrentando prolongada temporada de caça aos direitos socioambientais, seguimos convocando toda a arca de Noé, de “a” a “o”, passando por vogais e consoantes dissonantes, para a reconstrução coletiva do mundo, seja quais forem o tempo e o estado em que ele será resgatado das mãos daqueles que ora o asfixiam.

Fonte: https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-isa/subvertendo-a-gramatica-e-outras-historias