Organizações representativas dos povos indígenas divulgaram uma nota de apoio à deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG) após declarações feitas durante uma reunião da Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais da Câmara dos Deputados, em 22 de abril de 2025.
O documento classifica as falas dirigidas à parlamentar como ataques racistas, machistas e coloniais. A manifestação também convoca lideranças, organizações indígenas e entidades indigenistas de diferentes regiões do Brasil a reagirem contra tentativas de negar identidades e deslegitimar a presença indígena no Congresso Nacional.
O que ocorreu durante a reunião da comissão
A controvérsia envolveu declarações do deputado Coronel Chrisóstomo (PL-AM), feitas ao lado da deputada Silvia Nobre (PL-AP). Segundo a nota, os parlamentares questionaram o pertencimento indígena de Célia Xakriabá e estabeleceram uma comparação entre povos de Minas Gerais e da Amazônia.
Em um trecho reproduzido pelas organizações, Coronel Chrisóstomo afirmou que os indígenas de Minas Gerais aparentemente não seriam iguais aos da Amazônia e sugeriu que havia poucos indígenas no estado representado por Célia Xakriabá.
A declaração foi interpretada pelas entidades como uma tentativa de hierarquizar identidades indígenas com base na região de origem. A nota também acusa os dois parlamentares de usarem suas autodeclarações para sustentar posições políticas contrárias às reivindicações de outros povos e organizações.
As críticas apresentadas no documento representam a posição das entidades signatárias. O episódio deve ser compreendido dentro do debate político sobre identidade, representatividade e participação indígena no Poder Legislativo.
Quem assinou a nota de apoio
A manifestação foi assinada por cinco organizações:
- Articulação dos Povos Indígenas do Brasil — APIB;
- Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira — COIAB;
- Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas — APIAM;
- Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro — FOIRN;
- Conselho Indígena de Roraima — CIR.
As entidades afirmaram que o ataque não deveria ser tratado como uma disputa individual entre parlamentares. Para as organizações, questionar a identidade de Célia Xakriabá também atinge mulheres indígenas, comunidades, territórios e movimentos que lutam por representação política.
O documento chama atenção para um problema recorrente: a tentativa de definir quem pode ou não ser reconhecido como indígena a partir de aparência, localização geográfica ou expectativas externas sobre como uma pessoa indígena deveria viver e se apresentar.
Quem é Célia Xakriabá
Célia Xakriabá é deputada federal por Minas Gerais e integrante do povo Xakriabá. Eleita para a legislatura de 2023 a 2027, atua em pautas relacionadas aos direitos dos povos indígenas, à proteção dos territórios, à educação, à cultura e aos direitos das mulheres.
A parlamentar integra comissões da Câmara ligadas aos povos originários, aos direitos humanos e à cultura. Em abril de 2025, também assumiu a terceira vice-presidência da Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais.
Sua trajetória pública está ligada à educação indígena e à defesa da relação entre território, identidade e produção de conhecimento. Essa atuação ajuda a explicar por que o episódio provocou reação de organizações de várias regiões, e não apenas de entidades de Minas Gerais.
Na nota, as organizações descrevem Célia Xakriabá como uma referência da resistência indígena e destacam sua ligação com o Cerrado. O texto afirma que sua presença no Parlamento representa uma construção coletiva formada por diferentes gerações de lideranças e comunidades.
Por que questionar uma identidade indígena gera reação
Os povos indígenas presentes no Brasil não formam um grupo cultural homogêneo. Existem diferenças de língua, organização social, trajetória histórica, território e relação com centros urbanos.
Uma pessoa indígena não deixa de pertencer ao seu povo por viver fora da Amazônia, estudar em uma universidade, ocupar um cargo público ou utilizar tecnologias contemporâneas. O pertencimento não pode ser determinado apenas por aparência física, estado de origem ou distância de uma aldeia.
As organizações signatárias entendem que discursos que separam indígenas considerados “legítimos” daqueles vistos como menos indígenas reproduzem uma lógica colonial. Essa lógica tenta estabelecer critérios externos para reconhecer identidades que são construídas pelas próprias comunidades, por suas relações de pertencimento e por suas histórias coletivas.
O problema se torna ainda mais grave quando esse tipo de questionamento ocorre dentro de uma comissão criada para discutir assuntos relacionados à Amazônia, aos povos originários e às comunidades tradicionais.
Violência política contra mulheres indígenas
A nota também apresenta o episódio como uma forma de violência política contra uma mulher indígena.
Mulheres que ocupam cargos eletivos podem enfrentar ataques relacionados ao gênero, à origem étnica e à legitimidade de sua presença nos espaços de decisão. No caso de parlamentares indígenas, essas formas de discriminação podem aparecer simultaneamente.
O objetivo de uma agressão política nem sempre é apenas contestar uma proposta. Em determinadas situações, o discurso procura diminuir a autoridade da representante, negar sua identidade ou indicar que ela não deveria ocupar aquele espaço.
Por essa razão, as organizações consideraram necessário responder de forma coletiva. O texto afirma que ataques contra Célia Xakriabá também funcionam como recado para outras mulheres e lideranças indígenas que participam da política institucional.
Organizações convocam mobilização nacional
Além de manifestar solidariedade, APIB, COIAB, APIAM, FOIRN e CIR convocaram organizações indígenas e indigenistas a se posicionarem.
A nota defende a mobilização de lideranças, comunidades e redes de comunicação contra discursos que tentem dividir os povos indígenas ou criminalizar suas reivindicações. Também critica parlamentares que se apresentam como indígenas, mas apoiam propostas consideradas prejudiciais aos territórios e às comunidades.
O chamado não estabelece um calendário específico de ações. Seu objetivo principal é estimular manifestações públicas, ampliar a circulação da denúncia e demonstrar que Célia Xakriabá não está isolada diante dos ataques.
A reação coletiva também busca impedir que questionamentos sobre pertencimento indígena sejam normalizados como parte aceitável do debate parlamentar.
O que acompanhar após o episódio
O caso envolve mais do que uma troca de declarações dentro de uma comissão. Ele levanta questões sobre os limites do discurso parlamentar, a proteção contra violência política e o tratamento dado às identidades indígenas nas instituições brasileiras.
Entre os próximos pontos a observar estão eventuais manifestações da Câmara dos Deputados, representações formais contra os envolvidos e novas respostas de organizações indígenas.
Também será necessário acompanhar como a Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais lidará com episódios semelhantes. Um colegiado voltado às pautas indígenas precisa garantir que divergências políticas não se transformem em ataques à identidade ou ao pertencimento de seus integrantes.
A nota encerra reafirmando solidariedade a Célia Xakriabá e defendendo a unidade entre os povos indígenas. Para as entidades signatárias, ocupar os espaços de poder, denunciar a violência institucional e proteger as diferentes formas de existência indígena são partes da mesma luta.
